Existe pior maneira de se acordar do que com um pé de meia só? – resmungou retoricamente Marco ao se perceber ainda deitado e os passarinhos esguelando-se em pios há horas e horas.
Já passava das onze horas da manhã; partindo da pergunta inicial, quase todo o despertar era o pior – a natureza dos acontecimentos sempre lhe arrancavam um pé de meia durante o sono – e isso lhe custava o bom humor de uma boa parte da manhã. Isto, somado ao fato de o inverno ter chegado três dias atrás, colabora para a composição daqueles dias que, literalmente, não aquecem, nem fisicamente, nem emocionalmente. Mas, sorte, hoje é dia de folga.
Os calendários ostentam orgulhosos um 24 de junho de 1998 colorido e pomposo (embora em menos de sete meses seus destinos sejam iguais: o lixo). Alguns dos senhores certamente sabem que ontem mesmo o Brasil perdeu para a Noruega, em Marseille. O que não sabem é que o bairro inteiro de Marco não pode ver, faltou luz em dezesseis quarteirões da cidade. Marco não gosta de futebol, então, a indiferença permanece.
É fato que, do alto dos seus 1,80 e da imponência de sua magrelice, acostumou-se a levantar e ir direto ao banheiro para escovar os dentes com uma precisão indiscutível. Qualquer molar era simplesmente alcançado com um golpe de escova. Depois vestia meias limpas – pois as da noite estavam usadas – e calça jeans. Camisa. Todo dia.
- Marco! Hoje não vai ter almoço, vai buscar os biscoitos pra acompanhar o mate! – esbravejou Aura lá da porta da cozinha.
Aura? Aura é deliciosa. Aura é inadjetivável. Aura é inatingível. É a mulher que se ‘deve ter’ ao menos uma vez para que a vida tenha valido a pena. Aura exala empatia, e o seu perfume desenha as suas curvas nos sonhos de qualquer são.
Entretanto, a Aura dos biscoitinhos era exatamente a negação da essência de Aura – valha-me Deus, que personagem complexa. Nunca teve filhos e nem queria tê-los, até porque não sabia se amava o único homem que teve, e ainda tem. E se tivesse filhos, sem dúvida os teria por amor, embora uma inaptidão gritante emanasse daquele ser: o dom de ser mãe.
Semana passada esqueceu sua afilhada, Clara, de dois anos no playground do shopping, enquanto olhava uma loja de acessórios para banheiro. O comentário de que foi proibida de sair sozinha com a Clarinha seria dispensável.
Mas o dom que não tinha para ser mãe, tinha para ler. Aura ama os livros, muitas vezes pelo fato de ser um subterfúgio da sua cozinha. E assim, por ser boa leitora, certa vez leu no Bioy[1] que matear sem algo para acompanhar fazia mal para o estômago, e tomou isso como verdade. Desde então, Marco foi incumbido de toda manhã ir à padaria da esquina buscar biscoitos, sejam eles doces ou salgados. “Os que tiverem” – ela sempre repete quando ele alcança a porta.
A padaria ficava do lado da casa de esquina, em frente ao mercadinho. O padeiro, por sua vez, era um senhor de cabelos grisalhos, nariz achatado – Marco sempre imaginava uma batata no lugar desse nariz – e uma barriga imponente. Levando em conta o tamanho da barriga do senhor padeiro (a qual, isomorficamente falando, dava impressão de que engolira uma melancia por inteiro) era possível inferir que naquela casa se comia bem!
Marco pediu os biscoitos educadamente, mas gesticulando muito. O padeiro achou aqueles movimentos um tanto desengonçados e rudes.
- Ei, meu garoto, mande um beijo para sua mulher, e vê se cuida bem dela. Ela é ótima. – disse o padeiro agitando os curtos braços, dando uma estranha sensação de compaixão a quem o visse.
Embora aquelas palavras não tenham feito sentido algum para Marco, ele agradeceu e voltou pra casa, transtornado, claro! Inevitavelmente, o vento gelado veio para tirar-lhe todos pensamentos e, assim, não lhe ocorria nada senão o frio.
[1] In: O sonho dos heróis de Adolfo Bioy Casares, pg 129.
Ficou muito bom, super bem escrito. Interessante como tu conseguiste detalhar bem a personalidade de Aura, geralmente o tipo de descrição que tu fizeste se perde na narrativa em terceira pessoa.
ResponderExcluirAdorei. :*