terça-feira, 30 de agosto de 2011

II


Capítulo inspirado em uma conversa que tive com o João Paulo (@Roodoon)


Imagem redesenhada e redefinida. Original por Camila Conti em http://migre.me/5ACam

Plano da projeção:

12 paralelepípedos à sua esquerda uma menina amarrava os cadarços do tênis esquerdo. Logo atrás dela, um guarda-chuva girava duas cores espalhando sorrisos pela rua. Apesar do inverno rigoroso, ele sentia uma vontade ingrata de beber cerveja gelada ali mesmo, ao lado do canteiro de flores.

O céu cor de baunilha a la O Sena em Argenteuil [2] correspondia à nostalgia um tanto dramática da cena. O mimetismo da arte se fundia com o cheiro de pão saindo do forno, os quais se abraçavam e se intervinham constantemente alegrando o cinza do asfalto. O vento, um pouco mais forte do que agradável, levava vestidos, chapéus e desequilibrava senhoras idosas.

Do outro lado da rua, uma moça agachada, com as mãos no rosto, permanecia impassível enquanto as pessoas passavam, esbarravam, praguejavam e ignoravam sua completude e existência. Aquilo lhe tirou toda a atenção ao resto da cena. A moça estava bem vestida, aparentava estar bem de saúde. Nenhum movimento, apenas crianças correndo com ganas de sumir de correr e uma orquestra de britadeiras. O som da sua cidade o agradava. Sentia uma necessidade pragmática (ou reativa) de sentir os cabelos lisos da moça. Julgou que tal moça, que lhe visitava sempre, não devia existir sem um nome.

- Só. Sofi. Sofia. Por que tão linda, se de cabelos curtos? Muitos hão de me recriminar, mas a exceção à bitolada boniteza dos cabelos longos, jazia ali, incólume. – argumentava para si próprio.

Sabe ele mesmo que quando sonha se perde personalidade. E tanto sabe que um senhor de rosto familiar e óculos bonitos surgiu ao seu lado, cutucou-o com o cotovelo.

- sabe filho, qualquer humano, e, consequentemente a humanidade, é um cristal psicológico. Ou melhor, sabes que cada humano é psicologicamente vítreo? – afirmou o senhor, enquanto ajeitava seu longo casaco preto e espanava algumas partículas de poeira.

- por que você está aqui? – interpelou Marco.

- o fato não é esse. mas fato certo é que somos tanto cristal que no mínimo movimento feito, seja físico ou metafísico, tu podes acabar estilhaçando um mundo. ou esse mundo vai ressoar tanto que perderás a capacidade de ouvir. até tu aprenderes a ouvir novamente, ah, que exercício divino! – argumentou o senhor.

- e voltastes a ouvir? – disse Marco.

- meu corpo não, mas minha alma te ouve. – respondeu.

- e quando se quebra esse cristal? – perguntou Marco um tanto confuso.

- assim como a confiança, tudo se repara. e dessa forma, a natureza das coisas é afetada. a surdez por vezes é inerente, assim como a condição de pureza. talvez, se um dia te quebrares, nunca será cristal puro novamente. talvez nem devemos ser. – falava o senhor enquanto olhava para o céu bonito como criança olha pra doce.

- mas e quem define essa condição de pureza que tu defendes? – interrompeu Marco.

- tua vivência de mundo, filho. quanto mais se vive, mais impuros nos tornamos. não num sentido de moralidade, mas num sentido mais existencial, mais relacionado à tua essência, à tua personalidade. quanto mais se experimenta o mundo, mais fragmentado tu te tornas. – respondeu ainda sorrindo pro céu.

- então tu realmente acredita que nascemos à luz e sombra de uma personalidade instintiva que acaba se moldando ao longo do tempo? – perguntou Marco, visivelmente contrariado.

- eu acredito que todo homem ouve aquilo que quer ouvir. – disse o homem e calou-se.

E quando o senhor se calou, ouviu assovios distantes ecoando. Assovios que apagavam todo seu cenário e levavam embora a orquestra da (des)construção. Como o surgimento de uma supernova, tudo foi arrancado do seu lugar e sugado pela claridade da sala.


Plano da realidade:

Marco acordou no sofá, checou o relógio, 14:36, ainda pensando nos cabelos curtos de Sofia.

Aura percebeu que ele acordara, lhe jogou um sorriso um tanto amarelo, virou as costas e voltou a dar atenção para o móvel que espanava.

Marco levantou, ajeitou as almofadas de flores que a mãe de Aura tinha dado de presente de Natal ano passado (as quais ele odiava), ligou o rádio e sentou-se à mesa com o saco de biscoitinhos e um pote de doce de leite. A tarde de folga ia ser longa.



[2] Originalmente La Seine à Argenteuil de 1873, quadro do pintor impressionista Oscar-Claude Monet (1840-1926)

terça-feira, 23 de agosto de 2011

I

Existe pior maneira de se acordar do que com um pé de meia só? – resmungou retoricamente Marco ao se perceber ainda deitado e os passarinhos esguelando-se em pios há horas e horas.

Já passava das onze horas da manhã; partindo da pergunta inicial, quase todo o despertar era o pior – a natureza dos acontecimentos sempre lhe arrancavam um pé de meia durante o sono – e isso lhe custava o bom humor de uma boa parte da manhã. Isto, somado ao fato de o inverno ter chegado três dias atrás, colabora para a composição daqueles dias que, literalmente, não aquecem, nem fisicamente, nem emocionalmente. Mas, sorte, hoje é dia de folga.

Os calendários ostentam orgulhosos um 24 de junho de 1998 colorido e pomposo (embora em menos de sete meses seus destinos sejam iguais: o lixo). Alguns dos senhores certamente sabem que ontem mesmo o Brasil perdeu para a Noruega, em Marseille. O que não sabem é que o bairro inteiro de Marco não pode ver, faltou luz em dezesseis quarteirões da cidade. Marco não gosta de futebol, então, a indiferença permanece.

É fato que, do alto dos seus 1,80 e da imponência de sua magrelice, acostumou-se a levantar e ir direto ao banheiro para escovar os dentes com uma precisão indiscutível. Qualquer molar era simplesmente alcançado com um golpe de escova. Depois vestia meias limpas – pois as da noite estavam usadas – e calça jeans. Camisa. Todo dia.

- Marco! Hoje não vai ter almoço, vai buscar os biscoitos pra acompanhar o mate! – esbravejou Aura lá da porta da cozinha.

Aura? Aura é deliciosa. Aura é inadjetivável. Aura é inatingível. É a mulher que se ‘deve ter’ ao menos uma vez para que a vida tenha valido a pena. Aura exala empatia, e o seu perfume desenha as suas curvas nos sonhos de qualquer são.

Entretanto, a Aura dos biscoitinhos era exatamente a negação da essência de Aura – valha-me Deus, que personagem complexa. Nunca teve filhos e nem queria tê-los, até porque não sabia se amava o único homem que teve, e ainda tem. E se tivesse filhos, sem dúvida os teria por amor, embora uma inaptidão gritante emanasse daquele ser: o dom de ser mãe.

Semana passada esqueceu sua afilhada, Clara, de dois anos no playground do shopping, enquanto olhava uma loja de acessórios para banheiro. O comentário de que foi proibida de sair sozinha com a Clarinha seria dispensável.

Mas o dom que não tinha para ser mãe, tinha para ler. Aura ama os livros, muitas vezes pelo fato de ser um subterfúgio da sua cozinha. E assim, por ser boa leitora, certa vez leu no Bioy[1] que matear sem algo para acompanhar fazia mal para o estômago, e tomou isso como verdade. Desde então, Marco foi incumbido de toda manhã ir à padaria da esquina buscar biscoitos, sejam eles doces ou salgados. “Os que tiverem” – ela sempre repete quando ele alcança a porta.

A padaria ficava do lado da casa de esquina, em frente ao mercadinho. O padeiro, por sua vez, era um senhor de cabelos grisalhos, nariz achatado – Marco sempre imaginava uma batata no lugar desse nariz – e uma barriga imponente. Levando em conta o tamanho da barriga do senhor padeiro (a qual, isomorficamente falando, dava impressão de que engolira uma melancia por inteiro) era possível inferir que naquela casa se comia bem!

Marco pediu os biscoitos educadamente, mas gesticulando muito. O padeiro achou aqueles movimentos um tanto desengonçados e rudes.

- Ei, meu garoto, mande um beijo para sua mulher, e vê se cuida bem dela. Ela é ótima. – disse o padeiro agitando os curtos braços, dando uma estranha sensação de compaixão a quem o visse.

Embora aquelas palavras não tenham feito sentido algum para Marco, ele agradeceu e voltou pra casa, transtornado, claro! Inevitavelmente, o vento gelado veio para tirar-lhe todos pensamentos e, assim, não lhe ocorria nada senão o frio.



[1] In: O sonho dos heróis de Adolfo Bioy Casares, pg 129.



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Lugar para a falta de espaço

Plano da argumentação:

Existem pontos críticos norteadores do texto: o (des)amor, o ciúmes, a percepção (ou a falta dela) e a felicidade. Notem que esses conceitos estão vivos na essência dessas linhas e, portanto, são parte constituinte de cada e qualquer ser e personagem.

Antes de saber quem é ou quem mesmo era, é preciso saber o ser. E uma pergunta tão simplista e complicada de se responder, agora se torna ainda mais complicada e ainda mais básica. A pergunta está intimamente conectada ao saber humano, mas aplicada de uma maneira mal direcionada.

Embora essa importância seja evidente, a resposta não é o centro dessa discussão que estamos adentrando. É imprescindível, antes de tudo, que a pergunta esteja certa. Sendo correta a pergunta, a resposta é fruto, assim como estas linhas.

E se ao final desse apanhado de palavras recairmos na pergunta inicial? ‘Quem sou eu?’ poderá assim dizer qualquer personagem, e o leitor há de convir que a pergunta correta muitas vezes seria ‘O que é ser?’. Mas é suficiente apenas ‘ser’?

Entre tantos outros saberes, sabe-se que existe um lugar onde há espaço para todo e qualquer ser, um lugar para os filmes de narrativa não-linear, para as orquestras italianas e para a metafísica. Existe tanto lugar para a falta de lar quanto lugar para a felicidade subjetiva. Lugar para a folia portenha e temporada de ski em Aspen. Tanto para sopa de ervilha quanto para Camões. Existe espaço, espaço... E o que nos limita e delimita esse espaço é uma vadia de traços delicados e fundamentação sinuosa de nome Percepção.

O projeto

De certa forma ambicioso e ao mesmo tempo preguiçoso é o projeto desse blog.
Um repositório de idéias e insights para a tentativa de escrever uma história
completa, que já tem seus moldes e limites definidos e, inclusive, suas feições
bonitas redesenhadas.

E assim, com o passar do tempo, post por post, talvez a história tome forma,
ganhe corpo e olhares críticos e me deixe (ou me leve).

Pois
a
história e
a
escrita
são
simbiose.

E eu, que sofro com as faltas de espaço, já começo a sofrer da falta de onde guardá-las, num mundo onde há espaço para tudo e todos.

Nessa infinitude de espaços, existe tanto espaço bonito, que desenho aqui o
meu, e só meu, Lugar para a falta de espaço.